“OLHARES DRAMATÚRGICOS”
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Terceira semana de trabalho: Leitura formal da obra, “A Tempestade”, de William Shakespeare; análise textual sobre o ponto de vista das personagens e a sua representação singular na comunidade inserida; visionamento e discussão de vídeos e textos complementares de modo a dissecar um ambiente de percepção colectivo.
Pontos de vista dramatúgicos
Nesta peça de Shakespeare encontram-se duas leituras que predominam sobre todas as outras, são elas:
- Próspero como o poeta, o criador de mundos fantásticos, o alter-ego de Shakespeare que, sendo esta a sua última peça, se despede do teatro e do mundo. Segundo esta leitura, o dramaturgo espelha a sua des-ilusão. A ilha/mundo onde ele ensaia a história do Homem.
Toda a sua obra marcada por uma luta pelo poder finda aqui, e as impossibilidades de compreender o porquê de todas as intrigas ou o eterno retorno do homem que se repete nos seus erros, é retratado como a única coisa tão certa como a morte.
- A outra possibilidade de leitura surge às portas do século XX com o materialismo histórico de Marx. “A exploração do homem pelo homem.” Esta abordagem refere-se ao colonialismo. Próspero ocupa uma ilha e retira a Calibã, legítimo herdeiro daquela ilha, o que é seu por direito.
Próspero, que havia sido destituído do seu ducado em Milão, é agora o que depõe um príncipe.
Em A Tempestade assiste-se, como escreve Kermode, a uma «relação entre o animal, o humano e o intelectual.» Cada um destes elementos pode ser distribuído por personagens mas é a transversalidade dessa relação que eleva a poesia. O acto criativo surge como uma tentativa de redenção perante a impossibilidade de mudar o mundo. Nessa constatação, o poeta, volta-se para a vida e, talvez, através de Fernando e Miranda encontre a beleza e esperança na humanidade.
Quando Próspero se desfaz do seu manto mágico que lhe dá o poder, diz-nos (Shakespeare) que essa é realidade, nada o poderá suster fora do mundo para sempre, por mais que tente viver fora dele é parte integrante do mesmo.
Bibliografia: SHAKESPEARE, William, 1623, A Tempestade, trad. Fátima Vieira, Porto: Campo das Letras, 2001
Outras pesquisas: Prospero´s Books de Greenaway, Dead Men de Jarmusch, William Blake, Utopia de Thomas More, Hieronymus Bosch.